sexta-feira, novembro 02, 2012

Os caminhos: Dor

Fazia frio naquela tarde e ele não queria se aquecer. Ironicamente ele já havia bebido quase toda uma garrafa de uísque. Só de olhar para o copo a sua frente já sentia novamente a queimação descendo garganta abaixo. "Eu quero morrer!" Foi o que ele gritou enquanto socava a janela a sua frente. Esta por sua vez estilhaçou-se em milhares de pedaços cortando seu agressor como resposta à sua arrogância. A brisa suave que entrava pelas falhas da janela, agora se tornara uma forte ventania que invadiu a sala jogando tudo que podia para longe. Todo seu trabalho espalhou-se pelo chão e ele deixou-se cair, de joelhos, sangrando, sem saber o motivo de tudo aquilo. Ele queria realmente morrer; seu sangramento não estancou e quando o tomou como relevante, pegou um pedaço dos restos da janela e começou a desenhar sobre o corte adquirido como se sua mão fosse uma obra de arte que precisava nervosamente ser concluída. Após alguns minutos ele começou a enxergar com dificuldade e percebeu então que iria desmaiar:

- Eu não quero morrer... Ei, onde está você sempre aparece nos meus piores momentos? Ajude-me...


Ele esperava uma resposta, mas ela não veio. Então realmente começou a se preocupar. O frio já não sentia mais e agora até a dor era algo escasso. Esforçando-se ao máximo para se mover, rastejou até a garrafa de uísque e com muita dificuldade a entornou. Parecia loucura, mas ele bebeu tudo que ainda restava e como um ultimo pedido, ele gritou para o nada:

- Obrigado, pelo menos não sinto nada. Só não demore com o fim, desejo que seja breve.

Ele apagou, ficou ali, imóvel e sua mente não viajou para qualquer lugar, não desta vez. O breve fim se aproximando enquanto o vento uivava através da janela, trazendo certo terror a cena. Ali, inconsciente e impotente, deitado em seu lago particular de sangue, ficou até despertar, talvez, em outra vida. Talvez um dia acorde, do contrario não haverá um fim e seu espírito não se tornará real.
Aquele ser ficou observando a cena deplorável que se estendia a sua frente e desceu até o corpo ao chão. Abaixou-se ao seu lado e com um leve assopro trouxe ordem à sala. Pareceu mágica, foi tudo muito rápido: a janela voltou ao normal, os papéis retornaram a sua ordem desorganizada em cima da mesa e o moribundo não jazia mais sobre o próprio sangue. Agora ele estava deitado ao chão em cima de um tapete felpudo e descansava suavemente.

Ao passo do que pareceram horas; minutos depois ela apareceu, esbelta, com seus lindos olhos castanhos, vestida apenas com uma de suas camisas e de braços cruzados. Parou ao seu lado, com os cabelos revoltos e abaixou para acordá-lo. Parou no meio do caminho imaginando estar sendo observada, olhou para todos os lados e nada viu, foi aí que aquele espírito, já acima de tudo o que transcorria naquela sala, deu um breve sorriso e disse a si mesmo: "Bom trabalho! Agora é com vocês.". Partiu. Ela ainda estava com aquela sensação, mas a deixou de lado, levantou, fechou todas as portas e janelas, voltou até ele e deitou do seu lado. Disse apenas uma frase: "Queria acabar com toda sua dor, mas para isso preciso que confie totalmente em mim.". Após aquelas palavras, ele se agarrou a ela e enterrou a cabeça em seus seios. Ela não disse nada, apenas o afagou com um cafuné e ficou ali contemplando o silêncio a contragosto. 

Continua...

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