terça-feira, julho 03, 2012

Lembranças II

Não sei quanto tempo se passou desde que cheguei, e na verdade, nem sei como vim parar em casa; me lembro apenas de uma imagem disforme de uma grande arvore e uma sombra estranha que não parecia ser a minha. Tenho a sensação de que não estou sozinho aqui e se não fosse o escuro e este silêncio mórbido, eu juraria que alguém esta me encarando. 
Dez minutos depois de vislumbrar a imensidão da penumbra à minha frente, eu levantei para me localizar e por incrível que pareça, eu não estava em casa. Foi a primeira vez que percebi o quanto fazia frio, mesmo sem o vento soprar, estava demasiado frio e meu corpo não queria responder aos estímulos que meu cérebro enviava, fazia muito, muito frio e quando consegui me localizar entrei em choque. A imagem disforme da arvore não era uma mera ilusão de minha mente e sim uma representação real do que estava a poucos metros de distancia de onde eu estava. Aquela sombra estranha era um observador e estava de fato me encarando, ele sussurrava algo que eu não conseguia entender e de alguma forma sobrenatural ele estava me impulsionando até onde estava. Eu não sentia meu corpo sendo guiado e lentamente cheguei aos pés daquela imensa arvore. Levantei meus braços e toquei levemente suas raízes, foi então que aconteceu:
Eu nunca estive em uma situação como esta.
Como assim?
Assim, menor que você, na verdade nunca pensei que fosse ficar menor.  
E eu pensando que você fosse me dizer algo romântico... tsch! 
Eu não poderia perder a oportunidade. Eu sei, eu sei; o momento não é para isso, mas você me conhece. 
Você realmente não existe garoto...
Eu fui tirado daquele transe, mas foi tão intenso que parecia real; tão real que foi como se eu pudesse sentir tudo aquilo de novo. Mas antes que eu pudesse me transportar totalmente para dentro daquela visão, o cara da sombra me puxou de volta e severamente me disse:
Eis que aqui é o limiar entre o real e sua lembrança, um dos muitos. Eu não sou apenas um observador, como me apresentei a você, estive aqui durante esse tempo todo calado, invisível, mas agora que você conseguiu entender a real ligação entre seu outro lado, o espiritual, eu tenho de perguntar: Você quer realmente continuar a ter este dom de visão ou abdica de tudo para seguir em frente? Você não ficará preso ao passado e não vislumbrará o futuro claramente, mas irá se lembrar a cada ciclo de lua de tudo o que passar e verá os enigmas que te dei durante todos esses anos. Você pode continuar ou voltar atrás de tudo e ser uma pessoa normal, o que você escolhe?
Claramente absorto em um transe profundo, eu não soube o que fazer apesar de já ter feito minha escolha. Fechei os olhos involuntariamente e cai no sono, quando acordei estava em casa, realmente em casa dessa vez, em minha cama. Eu suava, mesmo fazendo 14 graus lá fora com a tempestade que se aproximava, tudo estava claro e as gotas da chuva que se aproximava já marcavam presença em minha janela, fazendo ficarem turvas as imagens. Minha cabeça doía muito. Levantei e fui lavar o rosto no banheiro, ao me olhar no espelho, eu parecia alguns anos mais velho e fiquei consternado com aquilo. Sonho horrível aquele que eu tive horas atrás, mas será que realmente foi um sonho? Parecia tão real... Tão vívidas aquelas imagens...
Engraçado, não tenho certeza de ter sido real ou não, mas eu sei o que escolhi, mesmo não tendo revelado isso ali, se é que aquilo ocorreu mesmo, eu sempre estive preparado para esta decisão.

Não é atoa que tenho esses vislumbres surreais...

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