sexta-feira, maio 25, 2012

Lembranças I

- Eu sei... As perdas sempre são complicadas. Nunca estamos preparados por mais que acreditemos muito nisso. Quando tem de acontecer, já era, puft! e acabou, nunca sabemos quando vem e quando percebemos já é tarde.
Como se ele já tivesse passado por uma perda em algum momento da vida. 
Ele continuou lá, divagando no seu universo paralelo enquanto eu apenas o observo a distância; se não fosse eu o observador, talvez até pensasse que ele era louco, e na verdade eu também tenho minhas dúvidas. Enquanto estou aqui tomando nota de tudo, ele continua ininterruptamente seu monólogo. Não sei qual o real motivo disso, mas durante todos os meses, ele tira um período para fazer isso. Deve ser algum ritual, ou sei lá o quê. Bem, não sei, a única coisa que tenho certeza é que a cada dia que passa fica pior; antes ele ficava apenas alguns minutos observando a paisagem, já agora, ele conversa consigo mesmo e tem os momentos em que ele fica em total silêncio.
- Nada melhor que relaxar um pouco, não concorda? É... Eu imaginei que você fosse concordar mesmo. É tão tranquilo aqui, dentro de sua mente. Parece até que eles se foram definitivamente.
Maluco... Só pode.
O cara está sozinho e agora ainda conversa com o "nada", mas espere um minuto... Ele está olhando pra mim? Só pode ser brincadeira, esse cara não está me vendo aqui, isso é impossível. Todos esses anos, por que agora? Não sou eu, definitivamente, não sou eu que ele está olhando, não tem como ele me ver aqui. Mas que diabos ele está fazendo agora se levantando e vindo na minha direção?

- Você poderia sair daí sabia? - Disse ele caminhando na direção de meu esconderijo. - Não precisa mais se esconder, na verdade você nunca esteve escondido de mim, verdade seja dita. Eu sempre soube, mas agora precisamos conversar. Estive observando você e notei que está meio triste, cabisbaixo... o que está te incomodando?
 - Como assim nunca estive escondido? Todos esses anos... Esquece. - Eu estava atordoado demais para formular algo conciso. - Quer me explicar desde quando?
- Faz tanto tempo, você se recorda daquela arvore? - E apontando na direção de uma imensa arvore ao lado de uma escadaria mal acabada que ligava uma rua a outra, ele me fez calar e ficar observando a arvore atônito. Depois de um longo instante, sai do meu vislumbre e respondi entre dentes:
- É claro que lembro, foi ali que tudo começou... - Fiz uma pausa demorada e respirei fundo antes de continuar. - ...e inevitavelmente terminou.
Eu não sabia mais o que dizer, peguei minhas coisas e retornei para casa. Ele veio atrás de mim, em silêncio absoluto, ambos não tínhamos palavras para explicar a enxurrada de sensações que vieram à tona naquele momento, sei apenas que sustentamos nossos olhares na imagem daquela arvore idiota, calados, distantes...
[continua em breve]

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